A revolução silenciosa da China na área da saúde: A indústria farmacêutica e biotecnológica já não gira em torno dos Estados Unidos

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Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD

1/30/20262 min read

Em editorial recente o editor da revista Science, H. Holden Thorp, analisou a rápida ascensão da China como potência global nas áreas farmacêutica e em biotecnologia, apontando uma mudança histórica no equilíbrio de liderança científica tradicionalmente dominado pelos Estados Unidos. Ao longo de mais de um século, os grandes avanços científicos ocorreram majoritariamente nos EUA, frequentemente impulsionados por disputas geopolíticas. Esse modelo, no entanto, vem se desgastando nas últimas duas décadas, primeiro nas áreas de engenharia e ciência dos materiais e, mais recentemente, de forma ainda mais acelerada, no campo biomédico - nas áreas farmacêuticas e nas biotecnologias.

Segundo o autor, o avanço chinês não é fruto do acaso, mas de uma estratégia cuidadosamente planejada e sustentada por políticas públicas de longo prazo, elevados investimentos públicos e privados em ciência e inovação tecnológica, estímulo a formação de pessoal altamente qualificado desde a ciência básica até a inovação tecnológica aliado a modernização da sua agencia regulatória. Universidades chinesas já lideram rankings globais em engenharia e materiais, e agora o país replica esse sucesso nas ciências da vida. O 14º Plano Quinquenal da China priorizou áreas como medicina de precisão, biotecnologia farmacêutica e equipamentos avançados, além de promover reformas regulatórias que tornaram ensaios clínicos e aprovações de medicamentos mais rápidos e baratos. Atualmente, os ensaios clínicos na China são cerca de 30% mais baratos e até 40% mais rápidos do que no passado.

Os resultados são expressivos: o número de novos medicamentos em desenvolvimento no país aumentou oito vezes, e aproximadamente um terço dos novos fármacos licenciados por grandes empresas farmacêuticas norte-americanas tem origem chinesa. Análises recentes indicam que a China já alcançou paridade com os EUA em desenvolvimento de medicamentos, um feito que preocupa líderes da indústria e investidores do setor de biotecnologia.

Ao contrário, a resposta dos Estados Unidos tem sido considerada fraca e descoordenada, marcada por menor prioridade política à ciência básica e à inovação. O autor alerta para o risco de os EUA focarem apenas na retomada da manufatura farmacêutica, enquanto abrem mão da liderança em pesquisa e geração de propriedade intelectual, um movimento economicamente pouco racional e estrategicamente perigoso.

Por fim, o artigo defende que a ciência deve ser tratada como um bem público global. Em vez de intensificar o confronto político, os EUA deveriam adotar um modelo de engajamento seletivo e cooperação com a China, reconhecendo que o avanço científico beneficia a sociedade independentemente de sua origem nacional. Caso contrário, conclui o autor, o mundo poderá em breve presenciar uma inversão definitiva dos papéis históricos na inovação biomédica.

Para mais informações sobre os avanços recentes da China na ciência e na inovação tecnológica ver as Newsletters do CIEnP: 

https://www.cienp.org/como-explicar-o-extraordinario-desempenho-da-coreia-china-e-india-em-pdandi-visando-o-desenvolvimento-de-medicamentos-e-vacinas-inovadores-nas-ultimas

https://www.cienp.org/inovacao-radical-na-industria-farmaceutica-e-de-biotecnologia