Uma variante genética do BDNF pode proteger contra neuropatia causada pela quimioterapia

AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO

Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD

3/13/20262 min read

Introdução

A neuropatia periférica induzida por quimioterapia é um efeito adverso frequente em pacientes tratados com agentes antineoplásicos, especialmente compostos à base de platina, como a oxaliplatina. A condição causa dor, queimação, dormência e perda de sensibilidade ao toque ou à vibração, comprometendo a qualidade de vida e, muitas vezes, levando à redução da dose ou à interrupção do tratamento. Apesar de sua alta incidência, existem poucas estratégias eficazes para preveni-la ou tratá-la. Nesse contexto, cresce o interesse em identificar fatores genéticos que influenciem a susceptibilidade individual à neuropatia. Um estudo recente investigou o papel de uma variante do gene do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), conhecida como polimorfismo Val66Met, na predisposição à neuropatia induzida por oxaliplatina em pacientes com câncer colorretal.

O que os pesquisadores descobriram

Para avaliar essa hipótese, Li-Hsien Chen e colaboradores integraram dados clínicos de pacientes com câncer colorretal, análises de sequenciamento genômico e experimentos em modelos animais transgênicos. Os resultados indicaram que a variante Met do polimorfismo Val66Met no gene do BDNF exerce efeito protetor contra a neuropatia induzida por oxaliplatina, enquanto indivíduos portadores da variante Val apresentam maior susceptibilidade ao dano neural provocado pela quimioterapia.

Experimentos em camundongos humanizados confirmaram esses achados. Animais portadores da variante Met apresentaram melhor preservação da estrutura dos nervos periféricos após exposição à oxaliplatina, mantendo a integridade das fibras nervosas sensoriais. Ao contrário, animais com a variante Val mostraram maior degeneração axonal, inflamação e perda de estruturas responsáveis pela percepção sensorial.

Estudos mecanísticos sugerem que essas diferenças estão relacionadas à modulação das vias de sinalização por BDNF. Nos portadores da variante Val observou-se maior ativação de vias associadas à sensibilização nociceptiva e à morte neuronal, enquanto a variante Met reduziu processos inflamatórios e apoptóticos.

Conclusões e perspectivas clínicas

Os resultados indicam que o polimorfismo Val66Met do gene BDNF pode ser um determinante genético importante da susceptibilidade à neuropatia periférica induzida por oxaliplatina. Essa descoberta sugere que testes genéticos poderão, no futuro, ajudar a identificar pacientes com maior risco de desenvolver neuropatia durante o tratamento quimioterápico. Além disso, o estudo aponta que a modulação da via do receptor p75NTR ou o uso de compostos neuroprotetores experimentais pode reduzir o dano neural associado à quimioterapia. Essas descobertas abrem novas perspectivas para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais personalizadas, capazes de prevenir ou tratar a neuropatia induzida por quimioterapia e, assim, melhorar a segurança e a eficácia dos tratamentos contra o câncer.