Um ácido graxo produzido por bactérias intestinais reduz a aterosclerose em camundongos

AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO

Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD

10/19/20262 min read

Breve introdução

A aterosclerose é uma doença caracterizada pelo acúmulo de placas ateroscleróticas nas paredes das artérias, constituindo uma das principais causas de infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral. Embora alterações do microbioma intestinal estejam associadas às doenças cardiovasculares, os mecanismos responsáveis por essa relação ainda são pouco compreendidos.

O que os pesquisadores demonstraram

Em estudo publicado na revista Nature, Chao Yin e colaboradores investigaram como bactérias intestinais podem influenciar o metabolismo do colesterol e a progressão da aterosclerose. Os pesquisadores identificaram que a bactéria intestinal Bacteroides uniformis, encontrada em menor abundância em indivíduos com doenças cardiovasculares, foi capaz de reduzir a formação de placas ateroscleróticas em camundongos geneticamente predispostos à doença e alimentados com uma dieta rica em gorduras. O tratamento também diminuiu as concentrações plasmáticas de colesterol total, LDL-colesterol e triglicerídeos, além de reduzir a infiltração de células inflamatórias nas paredes arteriais.

Por meio de análises bioquímicas, os pesquisadores identificaram o ácido pentadecanoico (C15:0), um ácido graxo saturado de cadeia ímpar, como o principal metabólito responsável por esses efeitos. A suplementação com essa molécula reduziu em aproximadamente 50% a carga de placas ateroscleróticas nos animais.

Os experimentos demonstraram que o ácido pentadecanoico inibe diretamente a HMG-CoA redutase, enzima fundamental para a síntese de colesterol e também inibida pelas estatinas. Essa ação reduz a produção hepática de colesterol e desencadeia mecanismos compensatórios que aumentam a expressão dos receptores hepáticos de LDL, favorecendo a remoção do colesterol circulante.

Os pesquisadores também verificaram que diversas bactérias intestinais do grupo Bacteroidota produzem esse ácido graxo. Em amostras humanas, indivíduos com dislipidemia apresentaram concentrações menores da molécula, além de menor potencial microbiano para sintetizá-la.

Conclusões e perspectivas

O estudo identifica um mecanismo pelo qual o microbioma intestinal pode influenciar diretamente o metabolismo do colesterol e a progressão da aterosclerose. O ácido pentadecanoico surge como um possível ponto de partida para novas estratégias terapêuticas. Entretanto, são necessários estudos pré-clínicos e clínicos para determinar sua eficácia, segurança e relevância em seres humanos.

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