Medicamento contra epilepsia mostra potencial contra glioma pediátrico

AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO

Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD

9/18/20262 min read

Breve introdução

Os gliomas pediátricos de alto grau estão entre as principais causas de mortalidade por tumores cerebrais em crianças. Entre eles, os gliomas difusos de linha média (DMG), frequentemente associados a alterações na histona H3, apresentam prognóstico particularmente desfavorável. Estudos recentes mostraram que os neurônios não apenas respondem à presença do tumor, mas também podem estimular diretamente seu crescimento por meio de conexões sinápticas.

Nos DMG, em particular, sinais mediados pelo neurotransmissor GABA são capazes de despolarizar as células tumorais e estimular sua proliferação. A partir dessa descoberta, pesquisadores investigaram se o levetiracetam, medicamento amplamente utilizado no tratamento da epilepsia, poderia interferir nessa comunicação entre neurônios e células tumorais.

O que os pesquisadores demonstraram

Em artigo publicado na revista Nature Medicine, Tara Barron e colaboradores analisaram retrospectivamente pacientes pediátricos de quatro instituições e demonstraram uma associação entre o uso de levetiracetam e maior sobrevida em crianças com DMG. Na principal coorte analisada, a sobrevida mediana foi de 20,96 meses entre os pacientes que receberam levetiracetam, em comparação com 9,92 meses entre aqueles que não receberam o medicamento. Essa associação não foi observada em crianças com gliomas hemisféricos de alto grau. Os autores ressaltam, entretanto, que esses dados são retrospectivos e envolvem um número relativamente pequeno de pacientes.

Experimentos em modelos animais reforçaram esses achados. O levetiracetam reduziu a proliferação e a carga tumoral e prolongou a sobrevida de camundongos com DMG, mas não produziu efeitos semelhantes em modelos de gliomas hemisféricos. Estudos eletrofisiológicos mostraram que o medicamento reduz seletivamente as correntes sinápticas GABAérgicas entre neurônios e células de DMG. Esse efeito não foi observado em neurônios saudáveis nem nas conexões glutamatérgicas e, surpreendentemente, mostrou-se independente de SV2A, principal alvo molecular conhecido do levetiracetam.

Conclusões e perspectivas

Os resultados sugerem que o levetiracetam pode exercer uma ação antitumoral nos DMG ao interferir na interação neurobiológica específica entre neurônios GABAérgicos e células tumorais. O trabalho também reforça o potencial de reposicionamento de medicamentos já disponíveis para bloquear mecanismos pelos quais os tumores exploram circuitos neurais.

Contudo, os autores enfatizam que estudos clínicos prospectivos, com maior número de pacientes e estratificação de acordo com a localização e as características moleculares do tumor, são necessários antes que o levetiracetam possa ser considerado uma estratégia terapêutica para os DMG.

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