Tau, micróglia e células T: uma nova conexão na doença de Alzheimer
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD
9/9/20262 min read
Breve introdução
A doença de Alzheimer é caracterizada pelo acúmulo de proteínas anormais no cérebro, especialmente beta-amiloide e tau. Embora a inflamação cerebral e a participação de células da imunidade inata, como a micróglia, sejam reconhecidas há algum tempo, o papel da imunidade adaptativa, particularmente dos linfócitos T, ainda não estava bem definido. Um estudo publicado na revista Nature mostrou, em modelos experimentais de tauopatia, uma importante interação entre micróglia ativada e linfócitos T, que parece contribuir para a perda neuronal e a atrofia cerebral.
O que os pesquisadores demonstraram
Os pesquisadores compararam camundongos com acúmulo de beta-amiloide ou de tau e observaram que a presença de tau estava associada a uma intensa resposta imune no cérebro. Nesses animais, observou-se especialmente um aumento no número de linfócitos T CD8+, que se concentravam nas regiões com maior acúmulo de tau e perda neuronal. Resultados semelhantes foram encontrados em amostras cerebrais de pessoas com doença de Alzheimer: quanto maior a patologia de tau, maior a presença de células T.
A micróglia também apresentou alterações marcantes, passando de um estado de vigilância para estados associados à doença e à resposta ao interferon. Essas células passaram a expressar mais moléculas envolvidas na apresentação de antígenos e a produzir quimiocinas capazes de favorecer o recrutamento de linfócitos T. A eliminação da micróglia reduziu drasticamente a infiltração de células T, a patologia de tau e a atrofia cerebral.
Além disso, a eliminação dos linfócitos T reduziu a ativação da micróglia, os níveis de tau hiperfosforilada, a perda neuronal e as alterações comportamentais. O bloqueio da sinalização do interferon-γ também atenuou a atrofia cerebral.
Conclusões e perspectivas
Os resultados indicam que a neurodegeneração associada à tau pode resultar de uma interação contínua entre micróglia e linfócitos T, e não apenas do efeito direto da proteína tau sobre os neurônios. A identificação dos antígenos responsáveis pela ativação dos linfócitos T é agora uma questão central. Esses antígenos podem incluir formas modificadas da tau, outras proteínas ou componentes liberados por neurônios danificados.
Estudos do mesmo grupo reforçam essa hipótese ao indicar que células dendríticas nos linfonodos cervicais podem participar da ativação e da expansão clonal das células T antes de sua entrada no cérebro. Essa descoberta amplia as possibilidades terapêuticas, pois sugere que a modulação dessa resposta imune periférica poderia reduzir a neurodegeneração sem necessariamente exigir que o medicamento atravesse a barreira hematoencefálica.


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