Quando o tratamento do câncer prolonga a vida, mas também impõe toxicidades crônicas
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD
8/5/20262 min read
Breve introdução
Os avanços recentes da oncologia, impulsionados por imunoterapias, anticorpos biespecíficos, conjugados anticorpo-fármaco e terapias alvo, têm aumentado significativamente a sobrevida de pacientes com câncer. Entretanto, esse progresso trouxe um novo desafio: muitos sobreviventes passam a conviver durante anos, ou até mesmo por toda a vida, com efeitos adversos persistentes decorrentes do tratamento. Os dois artigos publicados na Nature Medicine defendem que os sistemas atualmente utilizados para avaliar a toxicidade não refletem adequadamente o impacto desses efeitos na qualidade de vida dos pacientes.
O que os pesquisadores demonstraram
O editorial destaca que os critérios atualmente empregados para classificar eventos adversos priorizam sua gravidade imediata, mas negligenciam aspectos como duração, impacto funcional e consequências emocionais. Sintomas considerados leves, como diarreia, fadiga, erupções cutâneas ou neuropatia, podem tornar-se altamente incapacitantes quando persistem por meses ou anos. Os autores também ressaltam que ensaios clínicos frequentemente excluem pacientes mais vulneráveis e que muitas toxicidades só se tornam evidentes após a ampla utilização dos medicamentos na prática clínica.
O segundo artigo, escrito por uma paciente oncológica, complementa essa análise ao demonstrar que o conceito de "toxicidade manejável" nem sempre corresponde à experiência vivida pelos pacientes. A autora defende que a avaliação dos tratamentos deve incorporar, de forma sistemática, a perspectiva do paciente, promovendo comunicação transparente, tomada de decisão compartilhada e maior empatia por parte das equipes de saúde
Conclusões e perspectivas
Os artigos concluem que a inovação em oncologia deve ser acompanhada por mudanças igualmente profundas na forma de monitorar, registrar e comunicar os efeitos adversos. Será necessário desenvolver novos instrumentos capazes de mensurar o impacto funcional, psicológico e social das toxicidades crônicas, incorporar dados do mundo real (real-world data) e envolver os pacientes na construção desses indicadores. Somente assim será possível oferecer informações mais precisas, fortalecer o processo de consentimento informado e garantir que o sucesso terapêutico seja medido não apenas pelo aumento da sobrevida, mas também pela preservação da qualidade de vida dos pacientes.


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