Proteína estimulada pelo exercício melhora a memória e pode ajudar a combater a doença de Alzheimer

AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO

Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD

3/24/20262 min read

Introdução

O envelhecimento e a doença de Alzheimer estão frequentemente associados ao declínio progressivo da memória e da função cognitiva. Evidências acumuladas demonstram que a atividade física pode retardar esse processo, em parte por meio da liberação de moléculas circulantes que exercem efeitos benéficos no cérebro. Entre essas moléculas, chamadas de exerkines, algumas são produzidas em órgãos periféricos durante o exercício e podem influenciar o funcionamento cerebral. Um artigo publicado por Gregor Bieri e colaboradores na revista Cell investigou como uma dessas moléculas produzidas pelo fígado pode contribuir para melhorar a memória e proteger o cérebro contra alterações associadas ao envelhecimento e à doença de Alzheimer.

Principais resultados

Os autores demonstraram que o exercício físico aumenta, no fígado, a produção de uma enzima chamada GPLD1, que passa a circular no sangue. Em modelos experimentais com camundongos idosos, o aumento dessa molécula foi capaz de reverter déficits de memória relacionados à idade, restaurando o desempenho em testes cognitivos dependentes do hipocampo. O estudo mostrou que a GPLD1 atua principalmente sobre a vasculatura cerebral, modulando proteínas ancoradas à membrana, em especial a enzima TNAP, cuja expressão aumenta com o envelhecimento. O aumento da TNAP na vasculatura cerebral prejudica a função da barreira hematoencefálica e compromete a cognição. Por outro lado, o aumento da GPLD1 ou a inibição da atividade da TNAP restauraram a integridade vascular e melhoraram a memória.

Análises de transcriptômica de célula única indicaram que o tratamento com GPLD1 reverteu parcialmente alterações moleculares associadas ao envelhecimento no endotélio cerebral, restaurando perfis gênicos ligados ao metabolismo energético, à inflamação e à homeostase celular. Além disso, em modelos experimentais de doença de Alzheimer, o aumento da GPLD1 reduziu marcadores inflamatórios, diminuiu a patologia associada ao depósito de beta-amiloide e melhorou o desempenho cognitivo.

Conclusão e perspectivas

Os resultados demonstram que fatores circulantes derivados do fígado podem reproduzir parte dos benefícios do exercício físico sobre o cérebro. Ao atuar na vasculatura cerebral e na integridade da barreira hematoencefálica, a GPLD1 emerge como um potencial alvo terapêutico para combater o declínio cognitivo associado ao envelhecimento e à doença de Alzheimer. Esses achados reforçam a importância da saúde vascular no cérebro e sugerem novas estratégias terapêuticas baseadas em moléculas circulantes capazes de mimetizar os efeitos benéficos do exercício físico. Estudos futuros em humanos serão essenciais para avaliar seu potencial translacional.