Os ossos também podem combater o envelhecimento: uma nova perspectiva sobre a longevidade

AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO

Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD

11/3/20262 min read

Breve introdução

A atividade física é reconhecida como uma das estratégias mais eficazes para retardar o envelhecimento e preservar a saúde. Entretanto, os mecanismos responsáveis por seus efeitos sistêmicos ainda não estão completamente esclarecidos. Embora os benefícios do exercício sejam frequentemente associados à atividade muscular, os ossos também desempenham importante função na percepção de estímulos mecânicos e na regulação de processos metabólicos e fisiológicos.

O que os pesquisadores demonstraram

Em artigo publicado na revista Cell Metabolism, Zhang e colaboradores investigaram se a capacidade dos ossos de detectar forças mecânicas poderia influenciar o envelhecimento de diferentes órgãos e a longevidade. Inicialmente, os pesquisadores demonstraram que a deleção do canal mecanossensível PIEZO1 em osteócitos acelerou o envelhecimento em camundongos. Esses animais apresentaram perda óssea, alterações cognitivas e motoras, inflamação sistêmica e sinais de senescência em diferentes órgãos. Além disso, apresentaram redução da sobrevida.

Na sequência, os pesquisadores desenvolveram um procedimento denominado Dynamic Tibial Axial Loading (DTAL), que consiste na aplicação controlada de forças mecânicas sobre a tíbia. Camundongos idosos submetidos a esse procedimento apresentaram melhora na capacidade motora, na memória, no metabolismo da glicose e na integridade óssea. Surpreendentemente, o tratamento aumentou a sobrevida mediana em 9,4%, correspondendo a aproximadamente 79,5 dias.

Os estudos também demonstraram que a estimulação mecânica dos ossos reduziu a inflamação sistêmica e reverteu parcialmente a imunossenescência da medula óssea. Entre os fatores produzidos pelos osteócitos, destacou-se o PEDF (pigment epithelium-derived factor), uma proteína cuja expressão diminui com o envelhecimento. A administração dessa proteína reproduziu diversos efeitos protetores da estimulação mecânica, reduzindo a senescência em diferentes tecidos e melhorando parâmetros cognitivos e metabólicos.

Por fim, os pesquisadores realizaram estudos em humanos e demonstraram uma correlação negativa entre os níveis plasmáticos de PEDF e a idade. Sua concentração também estava reduzida em indivíduos com osteoporose. Experimentos com organoides de cartilagem humana mostraram que PEDF protegeu contra alterações associadas à senescência celular.

Conclusões e perspectivas

O trabalho revela uma função anteriormente pouco explorada dos ossos: atuar como sensores mecânicos capazes de regular o envelhecimento de todo o organismo. A ativação de PIEZO1 nos osteócitos estimula a produção de fatores protetores, especialmente PEDF, contribuindo para preservar a função de diferentes órgãos.

Embora os resultados sejam bastante promissores, os efeitos observados ainda precisam ser confirmados em estudos clínicos. Também será necessário esclarecer a contribuição de outros fatores secretados pelos ossos e os mecanismos envolvidos nessa resposta. Os resultados abrem perspectivas para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas destinadas a retardar o envelhecimento, particularmente em indivíduos com mobilidade reduzida ou impossibilitados de realizar exercícios físicos.

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