O potencial terapêutico de organoide humano de medula espinhal para reparo da lesão medular
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD
2/26/20262 min read
A transposição de resultados obtidos em modelos animais para a prática clínica em humanos representa um dos maiores desafios da pesquisa biomédica. Diferenças anatômicas, imunológicas, metabólicas e fisiopatológicas frequentemente limitam a previsibilidade dos modelos pré-clínicos. Essa dificuldade é ainda mais acentuada nas doenças que acometem o sistema nervoso central (SNC), onde a complexidade da arquitetura neural, a resposta inflamatória específica, a formação de cicatriz glial e a limitada capacidade regenerativa tornam a tradução terapêutica particularmente desafiadora.
A lesão medular é uma das principais causas de incapacidade permanente e morte, com 250.000 a 500.000 novos casos por ano no mundo. Não há terapias eficazes para fases aguda ou crônica. Após o trauma, ocorre intensa resposta inflamatória e formação de cicatriz glial, que protege o tecido, mas também inibe a regeneração neuronal por barreiras físicas e sinais químicos. Na fase crônica, forma-se uma cavidade com líquido cerebrospinal cercada por proteoglicanos, colágeno, astrócitos e fibroblastos. Estratégias em estudo incluem estimulação elétrica, anticorpos, peptídeos, células-tronco neurais entre outras. Avanços recentes destacam biomateriais e terapias combinadas como abordagens promissoras.
Artigo recente liderado por Samuel I. Stupp e colaboradores publicado na revista Nature Biomedical Engineering descreve uma abordagem inovadora para o tratamento da lesão medular traumática grave em humanos por meio do implante de um organoide da medula espinhal humana em pacientes na fase aguda da lesão. A estratégia proposta pelos pesquisadores visa modificar o microambiente inflamatório por meio da implantação precoce de uma matriz tridimensional biocompatível, com propriedades estruturais e biológicas destinadas a favorecer a preservação tecidual e estimular regeneração.
O estudo envolveu pacientes com lesão medular torácica completa, submetidos à descompressão cirúrgica e, adicionalmente, ao implante da matriz tridimensional diretamente no local da lesão. Os resultados demonstraram que o procedimento foi tecnicamente viável e seguro, sem eventos adversos graves relacionados ao implante. Observou-se ainda evidência de preservação estrutural local e sinais preliminares de melhora neurológica em parte dos pacientes durante o seguimento clínico.
Embora os achados sejam promissores, os autores enfatizam que se trata de uma investigação inicial, com número limitado de pacientes e sem grupo controle, sendo necessários ensaios clínicos bem controlados para confirmar sua eficácia clínica. Ainda assim, representa um avanço relevante na tentativa de superar barreiras translacionais históricas no tratamento das lesões do SNC.


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