O novo protagonismo da China na indústria global de medicamentos
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD
6/1/20262 min read
Em artigo publicado na revista Nature, Lizzi C. Lee & Jing Qian analisam a rápida ascensão da China como potência global em biotecnologia, desenvolvimento de medicamentos e produção farmacêutica, destacando ao mesmo tempo os riscos de um isolamento científico e tecnológico motivado por tensões geopolíticas.
Segundo os autores, a China já ocupa posição dominante em grande parte da cadeia global de suprimentos farmacêuticos, sendo responsável por 70% a 95% da produção mundial de diversos insumos essenciais, como ibuprofeno e paracetamol. Em 2024, empresas chinesas desenvolveram mais de 1.250 novos medicamentos, aproximando-se do desempenho dos Estados Unidos e superando a União Europeia. O país também ampliou significativamente sua participação em ensaios clínicos globais, passando de 9% em 2018 para cerca de 20% atualmente.
O avanço chinês foi impulsionado por décadas de investimentos em manufatura química, infraestrutura logística, formação de pesquisadores e reformas regulatórias iniciadas em 2015. Além disso, a China se tornou altamente competitiva por oferecer custos menores, grande capacidade de recrutamento para estudos clínicos e elevada eficiência operacional.
Apesar desse crescimento, os autores argumentam que a China ainda não é autossuficiente em inovação biomédica. O país continua dependente da circulação internacional de conhecimento, equipamentos, softwares, dados clínicos e colaboração científica. Também enfrenta desafios importantes, como intensa competição interna, foco excessivo em melhorias incrementais em vez de descobertas disruptivas, limitações de capital para pesquisas de alto risco e desconfiança internacional relacionada à proteção da propriedade intelectual e dos dados genéticos.
O artigo destaca que os maiores sucessos recentes da biotecnologia chinesa ocorreram justamente em ambientes colaborativos. Exemplos incluem terapias oncológicas desenvolvidas na China e posteriormente aprovadas pela FDA nos Estados Unidos, como zanubrutinibe e o toripalimabe, demonstrando que a integração internacional fortalece tanto a ciência chinesa quanto o sistema global de inovação biomédica.
Os autores concluem que o futuro da biotecnologia mundial dependerá, em grande medida, da cooperação entre China, Estados Unidos e Europa. Para eles, a China somente se consolidará como verdadeira líder global em inovação farmacêutica se permanecer integrada ao ecossistema científico internacional, promovendo colaboração, transparência regulatória e mobilidade científica.


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