Novo medicamento pode promover cura funcional da hepatite B em parte dos pacientes

AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO

Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD

1/14/20262 min read

A hepatite B crônica permanece como um dos maiores desafios globais de saúde pública. Estima-se que aproximadamente 300 milhões de pessoas convivam com a infecção crônica pelo vírus da hepatite B (HBV), condição que pode evoluir para cirrose, câncer de fígado e outras complicações graves, responsáveis por mais de um milhão de mortes todos os anos. Embora existam medicamentos capazes de suprimir a replicação viral de forma eficaz, a maioria dos pacientes necessita de tratamento contínuo ao longo da vida, e as taxas de cura funcional ainda são muito baixas.

Nesse cenário, um anúncio recente da farmacêutica GSK despertou grande atenção na comunidade científica. A empresa informou que seu candidato a medicamento, o bepirovirsen (ou “bepi”), apresentou resultados positivos em dois estudos clínicos de fase 3, alcançando desfechos considerados estatisticamente e clinicamente significativos. Apesar da ausência de dados detalhados até o momento, a GSK pretende submeter o pedido de aprovação regulatória nos próximos meses. Caso os resultados sejam confirmados, o bepirovirsen poderá representar um avanço inédito ao possibilitar uma “cura funcional” para uma parcela relevante dos pacientes com hepatite B crônica.

A cura funcional não significa a eliminação completa do vírus do organismo, algo extremamente difícil no caso do HBV, já que seu material genético pode integrar-se ao DNA das células humanas e formar estruturas estáveis conhecidas como cccDNA. Em vez disso, esse conceito refere-se à supressão sustentada do vírus a níveis tão baixos que o sistema imunológico consiga manter o controle da infecção sem a necessidade de tratamento contínuo.

O bepirovirsen é um oligonucleotídeo antissenso administrado por injeção semanal. Seu mecanismo de ação baseia-se na ligação ao RNA mensageiro do HBV, bloqueando a produção de proteínas virais e, possivelmente, fortalecendo a resposta imunológica contra o vírus. Em um estudo de fase 2b publicado em 2022, cerca de 10% dos pacientes tratados com bepirovirsen em combinação com terapias padrão apresentaram níveis indetectáveis de DNA viral e antígeno de superfície por pelo menos 24 semanas após o término do tratamento, com perfil de segurança favorável.

Os estudos de fase 3 envolveram aproximadamente 1.800 participantes em 29 países, todos em uso de terapias convencionais. Os pacientes receberam bepirovirsen por 24 ou 48 semanas, enquanto os grupos controle mantiveram apenas o tratamento padrão. Segundo a GSK, os resultados indicaram taxas superiores de cura funcional em comparação às terapias atuais, embora detalhes sobre a durabilidade da resposta e possíveis efeitos adversos ainda não tenham sido divulgados.

Especialistas avaliam o anúncio como um sinal concreto de que a cura funcional da hepatite B é um objetivo alcançável, mas ressaltam a importância de cautela até a publicação dos dados completos. Ainda assim, o avanço representa um marco promissor em um campo que há décadas busca alternativas mais eficazes e duradouras para o controle da hepatite B crônica.