Novas evidências indicam que diferentes substâncias psicodélicas convergem em um mesmo efeito neural

AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO

Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD

4/10/20262 min read

Introdução

O interesse científico pelos psicodélicos tem ressurgido de forma intensa nas últimas duas décadas, impulsionado por evidências de seu potencial terapêutico em transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade e dependência química. Após um longo período de estagnação regulatória e científica, essas substâncias voltaram ao centro da pesquisa biomédica, especialmente no contexto da neurociência moderna.

Um dos principais desafios atuais é compreender, de forma integrada, como compostos quimicamente distintos, como psilocibina, LSD, mescalina e DMT, produzem efeitos subjetivos e clínicos semelhantes. Nesse cenário, estudos recentes baseados em neuroimagem têm buscado identificar padrões comuns de ação no cérebro humano.

O que os pesquisadores demonstraram

Manesh Girn e colaboradores publicaram um artigo na revista Nature Medicine demonstrando que diferentes psicodélicos, incluindo psilocibina, lysergic acid diethylamide (LSD), mescalina, N,N-dimetiltriptamina e ayahuasca, promovem alterações amplas e consistentes na conectividade cerebral.

Os autores realizaram uma análise integrando 11 conjuntos de dados independentes de ressonância magnética funcional em estado de repouso envolvendo cinco drogas psicodélicas (psilocibina, dietilamida do ácido lisérgico, mescalina, N,N-dimetiltriptamina e ayahuasca), provenientes de grupos de pesquisa distribuídos em três continentes e cinco países.

A análise de centenas de exames revelou que essas substâncias aumentam a comunicação entre regiões cerebrais que normalmente operam de forma mais segregada, especialmente entre redes associadas a funções cognitivas superiores e sistemas sensoriais. Esse aumento de conectividade ajuda a explicar fenômenos como a intensificação perceptiva, a sinestesia e a sensação de dissolução do ego. Paralelamente, observa-se uma redução da coesão interna de certas redes, sugerindo uma flexibilização da organização funcional do cérebro.

Utilizando métodos padronizados e modelagem bayesiana, os autores identificaram um padrão robusto de aumento da conectividade entre redes transmodais, como a rede default mode, frontoparietal e límbica, e redes sensoriais, como as visuais e somatomotoras. Ao mesmo tempo, observaram reduções seletivas na conectividade dentro de redes específicas, com variações entre as substâncias. Além disso, regiões subcorticais como tálamo, caudado e putâmen, bem como o cerebelo, também apresentam alterações relevantes em sua interação com o córtex.

Conclusão e perspectivas

Em conjunto, esses achados indicam que os psicodélicos promovem uma reorganização global da arquitetura cerebral, aumentando a integração entre sistemas e reduzindo padrões rígidos de atividade.

Essas descobertas ajudam a explicar os efeitos terapêuticos dessas substâncias, possivelmente associados à quebra de padrões patológicos de pensamento e ao aumento da plasticidade neural. Ao consolidar evidências de diferentes estudos, esses trabalhos oferecem uma base mais sólida para o desenvolvimento de aplicações clínicas seguras e eficazes no futuro.