Mecanismo semelhante ao dos príons ajuda a explicar a propagação da proteína tau na doença de Alzheimer

AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO

Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD

10/23/20262 min read

Breve introdução

A proteína tau desempenha funções importantes na estabilização dos microtúbulos neuronais. Entretanto, alterações em sua conformação podem favorecer a formação de agregados filamentosos associados a diversas doenças neurodegenerativas, incluindo a doença de Alzheimer (DA) e a degeneração corticobasal (DCB). Evidências anteriores sugeriam que esses agregados poderiam induzir o dobramento anormal de outras moléculas de tau, propagando a patologia entre células cerebrais. Contudo, ainda não havia sido demonstrado se essas estruturas mantinham sua conformação original durante a propagação.

O que os pesquisadores demonstraram

Em estudo publicado na revista Nature, Sofia Lövestam e colaboradores investigaram essa hipótese utilizando modelos experimentais em camundongos. Os pesquisadores injetaram no cérebro de camundongos filamentos da proteína tau isolados de amostras cerebrais de cinco indivíduos com DA e seis com DCB. Após nove a doze meses, avaliaram a distribuição dos agregados patológicos, suas características bioquímicas e estruturas moleculares.

Os resultados demonstraram que a proteína tau humana injetada no cérebro dos animais induziu a formação de agregados constituídos pela própria proteína tau dos camundongos. Análises por microscopia eletrônica e técnicas bioquímicas confirmaram que os filamentos humanos inicialmente administrados deixaram de ser detectados, enquanto os agregados de tau murina aumentaram progressivamente.

A microscopia crioeletrônica revelou o principal achado do trabalho: os filamentos formados nos camundongos reproduziram as estruturas tridimensionais características dos filamentos humanos que serviram como sementes. Assim, as conformações associadas à DA e à DCB foram preservadas durante a propagação.

Além disso, os agregados apresentaram padrões patológicos distintos. Nos animais que receberam sementes da DA, os agregados foram observados predominantemente nos neurônios. Nos camundongos que receberam filamentos da DCB, também foram identificadas inclusões em células gliais, incluindo astrócitos. Essas diferenças reproduziram características observadas nas doenças humanas correspondentes.

Conclusões e perspectivas

O estudo fornece evidências estruturais diretas de que diferentes conformações da proteína tau podem atuar como cepas distintas, propagando-se por um mecanismo semelhante ao dos príons. Os resultados reforçam a hipótese de que a estrutura dos agregados contribui para determinar as características específicas de diferentes tauopatias.

Esses achados estabelecem um modelo experimental relevante para investigar os mecanismos moleculares da propagação da tau e identificar possíveis alvos terapêuticos. Entretanto, os camundongos não desenvolveram manifestações clínicas evidentes durante o período estudado. Portanto, ainda é necessário esclarecer como a propagação dos agregados se relaciona com a neurodegeneração e o aparecimento dos sintomas.

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