Inteligência artificial e genômica podem revolucionar a medicina tradicional e ampliar seu espaço na ciência moderna

AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO

Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD

9/8/20262 min read

Breve introdução

Embora a medicina tradicional baseada em plantas medicinais seja utilizada por bilhões de pessoas e constitua uma importante fonte de cuidados de saúde em muitos países, ainda existe uma grande lacuna entre seu uso disseminado e a disponibilidade de evidências científicas robustas sobre eficácia, segurança e qualidade. A China e a Índia vêm promovendo esforços para ampliar a base científica de seus sistemas tradicionais, com o objetivo de garantir maior segurança aos pacientes e facilitar sua aceitação internacional. O desafio é particularmente relevante porque menos de 1% do financiamento mundial em pesquisa em saúde é destinado às práticas tradicionais. Ao mesmo tempo, a história da farmacologia mostra que diversos medicamentos importantes, como a aspirina, a artemisinina e a vincristina, além de compostos utilizados em contraceptivos, tiveram origem em conhecimentos tradicionais.

O que o artigo propõe

Em artigo publicado na revista Nature Medicine, Ben Deighton discute os desafios e as oportunidades para integrar a medicina tradicional, complementar e integrativa à prática médica contemporânea. O autor destaca que uma das principais barreiras para a incorporação dessas terapias é a dificuldade de avaliá-las pelos mesmos métodos empregados para medicamentos convencionais. Tratamentos tradicionais frequentemente são personalizados, utilizam combinações de múltiplos componentes e podem apresentar desafios para sua avaliação por meio de ensaios clínicos randomizados convencionais, incluindo aqueles controlados por placebo. Entre as alternativas discutidas estão estudos de efetividade comparativa, evidências provenientes do mundo real e a chamada farmacologia reversa, que parte de tratamentos tradicionalmente utilizados para investigar seus mecanismos de ação.

Conclusões e perspectivas

O artigo destaca que a inteligência artificial, a genômica e outras tecnologias podem transformar a investigação das terapias tradicionais. A inteligência artificial poderá analisar grandes volumes de informações, identificar padrões entre formulações e pacientes e ajudar a revelar mecanismos biológicos. Estudos de ayurgenômica, por exemplo, já identificaram associações entre categorias tradicionais da medicina ayurvédica e características genéticas. A estratégia global da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o período de 2025 a 2034 estabelece como uma de suas prioridades o fortalecimento da base de evidências científicas. A perspectiva é de uma integração progressiva das terapias tradicionais à medicina convencional, desde que sua segurança, qualidade e eficácia sejam demonstradas e que novos métodos de avaliação sejam desenvolvidos para intervenções complexas e individualizadas.

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