Inteligência artificial e biologia molecular unem forças para revelar os segredos do cérebro humano e identificar novos alvos terapêuticos
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD
6/9/20262 min read
Em artigo publicado na revista Science, Jennie Erin Smith discute um dos maiores esforços já anunciados para compreender as doenças neurodegenerativas. A iniciativa, denominada Brain Health Accelerator, será conduzida pelo Allen Institute, nos Estados Unidos, e contará com investimentos de aproximadamente US$ 400 milhões ao longo de 14 anos. O objetivo é identificar as alterações celulares mais precoces associadas a doenças como Parkinson, Alzheimer, Huntington, esclerose lateral amiotrófica (ELA) e demência com corpos de Lewy.
O projeto prevê a análise de milhares de cérebros humanos doados para pesquisa, utilizando tecnologias avançadas de biologia molecular capazes de investigar, célula por célula, quais genes estão ativos, como os neurônios se comunicam e quais circuitos cerebrais começam a falhar antes mesmo do aparecimento dos sintomas clínicos. A expectativa é que esse conhecimento permita a identificação de novos alvos terapêuticos e acelere o desenvolvimento de medicamentos mais eficazes.
A iniciativa dá continuidade a um estudo anterior do instituto voltado para a doença de Alzheimer. Os resultados desse trabalho indicaram que alterações em determinados tipos celulares e circuitos neurais podem surgir antes mesmo da formação dos depósitos anormais de proteínas amiloide e tau, tradicionalmente considerados marcos da doença. Essa descoberta sugere que os processos patológicos podem se iniciar muito antes do que se imaginava.
Além dos estudos em tecido humano, os pesquisadores irão mapear cérebros de primatas não humanos e de camundongos para identificar quais tipos celulares e circuitos apresentam maior semelhança com os encontrados em humanos. Essa estratégia poderá tornar os modelos experimentais mais precisos e aumentar as chances de sucesso no desenvolvimento de novos medicamentos e terapias gênicas.
O projeto reúne 29 instituições parceiras e utilizará intensivamente ferramentas de inteligência artificial para analisar o enorme volume de dados gerados. Segundo os especialistas envolvidos, um dos principais desafios será obter cérebros doados acompanhados de informações clínicas detalhadas e exames complementares, além de padronizar os métodos de preservação do material biológico. Os pesquisadores acreditam que essa nova geração de mapas cerebrais poderá representar um marco para a neurociência, abrindo caminho para terapias mais precisas, personalizadas e eficazes contra algumas das doenças mais devastadoras associadas ao envelhecimento humano.


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