Inovação em saúde no Brasil além do financiamento: o gargalo invisível da formação profissional

Embora o financiamento seja essencial para viabilizar projetos de pesquisa e inovação, ele não é suficiente para garantir o avanço do Brasil no desenvolvimento de medicamentos e vacinas. Um gargalo estrutural ainda pouco debatido é a escassez de profissionais altamente qualificados ao longo de toda a cadeia de PD&I, da pesquisa básica à avaliação regulatória.

BLOG CIENP

Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD

3/4/20264 min read

Em diversas publicações institucionais, temos reiterado que o avanço da inovação em saúde no Brasil vai muito além da simples disponibilidade de financiamento. Embora os recursos financeiros sejam sem nenhuma dúvida, fator fundamental e indispensável para viabilizar propostas inovadoras em saúde humana, eles estão longe de ser suficientes para garantir o sucesso de projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I). Um gargalo estrutural, ainda amplamente negligenciado no debate público no Brasil é a ausência de políticas públicas consistentes e contínuas voltadas à formação e qualificação de recursos humanos ao longo de toda a cadeia de desenvolvimento de medicamentos e vacinas, desde a pesquisa básica e translacional, pesquisa pré-clínica e clínica, até as etapas finais de avaliação regulatória.

No cenário global, o setor de saúde, em especial a indústria farmacêutica e de biotecnologia destaca-se como o maior investidor em PD&I entre todas as áreas do conhecimento. Grandes empresas farmacêuticas chegam a destinar entre 15% e 20% de seus faturamentos líquidos anuais a atividades de PD&I. Soma-se a isto o fato de que os países líderes em inovação mantêm forte e permanente apoio estatal à pesquisa básica, translacional e ao desenvolvimento de startups de base tecnológica em saúde. Esses investimentos refletem a elevada complexidade do setor, caracterizado por custos extremamente altos, riscos significativos de insucesso e ciclos de desenvolvimento longos, que frequentemente ultrapassam uma década.

Entretanto, mesmo em contextos de financiamento robusto, a inovação radical em medicamentos e vacinas depende, de forma inquestionável da disponibilidade de profissionais altamente qualificados em todas as etapas do processo. Diferentemente de outros setores industriais menos complexas e pouco regulados, a área da saúde combina elevado risco científico e tecnológico, custos financeiros extremos, forte dependência de ciência translacional de alta qualidade e um ambiente regulatório rigoroso, complexo e internacionalmente harmonizado. Neste contexto, a ausência de pessoal altamente qualificado compromete não apenas a execução dos projetos, mas também sua avaliação técnica, seu necessário acompanhamento pelas agências de fomento e sua análise criteriosa pelas autoridades regulatórias.

No Brasil, esse gargalo permanece, em grande medida, invisível. Embora o país tenha ampliado de forma significativa a formação de doutores acadêmicos nas últimas décadas, persiste a escassez de profissionais treinados, doutores ou não, com experiência em toda cadeia de desenvolvimento farmacêutico, biotecnológico e regulatório. Faltam especialistas capazes de conduzir e avaliar estudos pré-clínicos e clínicos integrando, desde o início dos projetos, os requisitos regulatórios, bem como profissionais aptos a elaborar e analisar dossiês regulatórios completos cada vez mais complexos e realizar avaliações integradas de risco, eficácia e segurança no âmbito da agência regulatória nacional, a ANVISA. Essa lacuna afeta diretamente a atuação de instituições como a própria ANVISA e o INPI, além de limitar a capacidade de políticas públicas do Estado e das agências de fomento que financiam à PD&I de avaliar, priorizar e acompanhar projetos verdadeiramente inovadores.

A ausência de políticas deliberadas voltadas à formação, à atração nacional e internacional, e à retenção desses profissionais tende a perpetuar um modelo de inovação tecnológica limitado, centrado na produção de medicamentos genéricos e similares, em parcerias público-privadas com foco em resultados imediatos de substituição de importações. Esse modelo, adotado no Brasil desde o início dos anos 2000, embora possa reduzir riscos no curtíssimo prazo, compromete de forma significativa a competitividade internacional do país e aprofunda a dependência tecnológica externa em uma área estratégica como a saúde, afetando diretamente sua independência e soberania sanitária. Além de ineficiente, trata-se de um arranjo politicamente confortável: minimiza riscos institucionais imediatos, mas perpetua a dependência tecnológica e impede o país de assumir um papel relevante no desenvolvimento global de medicamentos e vacinas essenciais à sua soberania.

Superar esse gargalo exige reconhecer que o financiamento é uma condição necessária, porém claramente insuficiente, para o sucesso de projetos de PD&I em saúde. A superação desse desafio depende, essencialmente, de colocar a formação de capital humano altamente especializado no centro das políticas públicas em inovação tecnológica em saúde no Brasil.

Referências consultadas:

-OECD. Health at a Glance 2025: Europe & Global Health Indicators. Paris: OECD Publishing; 2025. Available from: https://www.oecd.org/en/publications/health-at-a-glance-2025_8f9e3f98-en.html

-International Federation of Pharmaceutical Manufacturers & Associations (IFPMA). The Pharmaceutical Industry and Global Health: Facts and Figures 2022. Geneva: IFPMA; 2022. Available from: https://www.ifpma.org/wp-content/uploads/2023/01/i2023_IFPMA-Facts-And-Figures-2022.pdf

-European Federation of Pharmaceutical Industries and Associations (EFPIA). The Pharmaceutical Industry in Figures 2025. Brussels: EFPIA; 2025. Available from: https://www.efpia.eu/media/uj0popel/the-pharmaceutical-industry-in-figures-2025.pdf

-DiMasi JA, Grabowski HG, Hansen RW. Innovation in the pharmaceutical industry: New estimates of R&D costs. J Health Econ. 2016;47:20–33.

-IQVIA Institute for Human Data Science. Global Trends in R&D 2025: Signs of Higher Efficiency and Productivity. IQVIA Institute; 2025. Available from: https://www.iqvia.com/blogs/2025/06/global-trends-in-r-and-d-2025-signs-of-higher-efficiency-and-productivity

-World Health Organization (WHO). Research and Development to Meet Health Needs in Developing Countries: Strengthening Global Financing and Coordination. Geneva: WHO; 2012. Available from: https://www.who.int/publications/i/item/9789241503457