Estudo revela a origem de raros casos de trombose após vacinação contra a COVID-19
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD
2/12/20262 min read
Introdução
Durante a campanha global de vacinação contra a COVID-19, vacinas baseadas em adenovírus como as desenvolvidas pela AstraZeneca e pela Johnson & Johnson desempenharam papel central na redução de casos graves e mortes. No entanto, em 2021, surgiram na Europa relatos de um evento adverso raro e grave, denominado VITT (trombocitopenia trombótica imune induzida por vacina). A condição se caracterizava pela formação de coágulos sanguíneos incomuns associada à queda acentuada de plaquetas e sangramentos potencialmente fatais. Investigações iniciais mostraram que os pacientes afetados produziam anticorpos contra a proteína PF4, envolvida na coagulação, desencadeando ativação intensa das plaquetas e uma perigosa cascata trombótica.
O que os autores demonstraram
Em artigo publicado na revista New England Journal of Medicine liderado por Greinacher e colaboradores demonstraram que uma proteína do adenovírus utilizado como vetor vacinal, denominada pVII, pode desencadear uma resposta imune aberrante em indivíduos geneticamente predispostos. Nessas pessoas, células B previamente sensibilizadas por infecções naturais por adenovírus seriam reativadas pela vacina. Durante o processo de maturação da resposta imune, mutações específicas em anticorpos produzidos por essas células gerariam alterações na carga elétrica dessas moléculas. Como resultado, esses anticorpos passariam a se ligar fortemente à PF4, devido a semelhanças estruturais entre essa proteína humana e um fragmento da pVII - um fenômeno conhecido como mimetismo molecular. Essa ligação desencadeia ativação plaquetária intensa, formação de trombos e consumo de plaquetas, levando também a hemorragias.
Conclusões e perspectivas
O VITT mostrou-se extremamente raro, com incidência estimada em cerca de um caso a cada 200 mil vacinados. Na Europa, foram registrados aproximadamente 900 casos e cerca de 200 mortes, em um contexto de bilhões de doses aplicadas globalmente, que salvaram milhões de vidas. As novas evidências esclarecem definitivamente a base biológica do evento adverso e oferecem subsídios para o aprimoramento de vacinas baseadas em adenovírus. Essa plataforma continua promissora para doenças como Ebola, malária e tuberculose, e os achados abrem caminho para o desenvolvimento de versões mais seguras dessa tecnologia.


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