Estudo demonstra que a depressão pode comprometer a formação de novos neurônios no hipocampo
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD
8/26/20262 min read
Breve introdução
A depressão maior está associada a alterações no hipocampo, região fundamental para a memória e a regulação emocional. Entre as hipóteses propostas para explicar essas alterações está a desregulação da neurogênese hipocampal adulta (AHN), processo pelo qual novas células nervosas são geradas no cérebro adulto. Embora estudos recentes indiquem que a AHN ocorre no hipocampo humano, sua importância na depressão ainda permanecia incerta. Neste estudo, pesquisadores analisaram tecido hipocampal post-mortem de indivíduos não medicados com depressão maior e de indivíduos-controle, combinando transcriptômica e análise da acessibilidade da cromatina em núcleo único, transcriptômica espacial e proteômica.
O que os pesquisadores demonstraram
Madeleine S. Peng e colaboradores descreveram, em artigo publicado na revista Nature Medicine, uma análise de aproximadamente 500 mil núcleos, que permitiu identificar uma trajetória neurogênica no hipocampo humano adulto, desde células-tronco neurais e células progenitoras até neuroblastos e neurônios granulares imaturos e maduros. Os resultados apoiam a existência da neurogênese adulta e indicam que, na depressão maior, esse processo está comprometido: observa-se maior proporção de células-tronco quiescentes e menor número de neuroblastos. Alterações em fatores de transcrição, na acessibilidade da cromatina e na expressão gênica podem contribuir para esse bloqueio.
O hipocampo de indivíduos com depressão maior também apresentou aumento de sinais relacionados a interferons, estresse celular e inflamação, redução de fatores tróficos, como o BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), e alterações nas vias serotoninérgica e glutamatérgica. Foram observados, ainda, desequilíbrio entre atividades excitatória e inibitória, alterações no transporte intracelular e prejuízo da plasticidade sináptica.
Conclusões e perspectivas
O estudo fornece evidências de que a neurogênese hipocampal adulta ocorre no cérebro humano e de que sua desregulação pode participar da fisiopatologia da depressão, especialmente dos déficits cognitivos relacionados à memória. Os achados sugerem que fatores genéticos e epigenéticos, estresse, inflamação e alterações na neurotransmissão podem atuar de forma integrada nesse processo.
Embora o caráter post-mortem e transversal do estudo impeça o estabelecimento de relações causais, o trabalho oferece um mapa molecular detalhado do hipocampo de indivíduos com depressão maior e aponta potenciais biomarcadores e alvos terapêuticos. Novos estudos serão necessários para validar esses mecanismos e investigar se estratégias capazes de restaurar a neurogênese e a plasticidade hipocampal podem produzir benefícios clínicos.


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