Doutorado nas áreas STEM: uma agenda estratégica para o avanço da inovação tecnológica

Quem liderará a inovação tecnológica nas próximas décadas? A resposta pode estar na formação de doutores em STEM. Entenda por que países como China e Estados Unidos estão reformulando seus sistemas e o que o Brasil pode aprender com isso.

BLOG CIENP

Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD

4/6/20265 min read

Nas últimas décadas, países inovadores como os Estados Unidos e a China reavaliaram profundamente seus sistemas de pós-graduação, passando a priorizar a formação de recursos humanos nas áreas estratégicas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, também conhecidas como “STEM”. Essa mudança não ocorreu por acaso. Ela reflete tanto a aceleração dos avanços científicos e tecnológicos quanto o aumento da competitividade econômica e das disputas geopolíticas por soberania tecnológica no século XXI.

Tornou-se evidente que países que investiram de forma consistente e por longos períodos na formação de doutores em STEM ampliaram significativamente sua capacidade de inovar, gerar patentes, criar empresas de base tecnológica e desenvolver produtos de alto valor agregado com inserção global. A transformação do conhecimento científico em inovação, incluindo novos produtos, processos e serviços, depende, em grande medida, da existência de uma massa crítica de cientistas e engenheiros altamente qualificados.

Um editorial recente publicado na revista Science chama a atenção para a rápida mudança no equilíbrio global da produção científica e tecnológica. Dados do Nature Index indicam que, em 2024, a China respondeu por 56% das publicações em periódicos científicos de elite, enquanto os Estados Unidos contribuíram com cerca de 10%. Há poucos anos, o cenário era inverso. Essa inflexão sinaliza que a formação de doutores em áreas estratégicas passou a ser tratada como prioridade nacional pelo país asiático.

Além de priorizar STEM, a China vem, desde o início do século, combinando investimentos públicos robustos, metas nacionais claras e forte integração entre universidades, institutos de pesquisa e empresas. O país modernizou suas agências regulatórias, repatriou e contratou milhares de doutores formados no exterior, estimulou o capital de risco e apoiou, de forma sistemática, startups de base tecnológica. Como resultado, consolidou presença crescente em áreas tão diversas como inteligência artificial, ciência quântica, novos materiais, telecomunicações 5G/6G, biotecnologia, energias renováveis, veículos elétricos e exploração espacial, entre outras.

Os autores do editorial publicado na revista Science destacam, ainda, que, nos Estados Unidos, embora o sistema universitário permaneça referência mundial, o crescimento no número de doutores em ciência e engenharia tem sido relativamente modesto. Em 2024, foram formados pouco menos de 46 mil doutores nessas áreas, com aumento de 12,8% em relação a 2014. Além disso, o tempo médio para conclusão do doutorado, próximo de seis anos, é superior ao observado em países como Alemanha e França, o que pode retardar a inserção desses profissionais no ecossistema de inovação.

Diante desse quadro, os autores do editorial defendem a priorização da formação de recursos humanos voltados explicitamente à inovação tecnológica, com maior integração ao setor produtivo, sem, contudo, abandonar a formação acadêmica tradicional. Modelos como o da Fraunhofer-Gesellschaft, na Alemanha, e o programa Convention Industrielle de Formation par la Recherche (CIFRE), na França, demonstram que é possível estruturar doutorados com forte interação empresa–universidade, metas claras e impacto econômico. A Fraunhofer-Gesellschaft é uma das principais organizações de pesquisa aplicada da Europa, com institutos que realizam pesquisa em estreita colaboração com empresas e governos, atuando como uma ponte entre academia e indústria para a transferência de tecnologia. Estudos sobre o modelo apontam seu foco em resultados aplicados e financiamento misto (público e por meio de contratos com a indústria). O programa CIFRE (Conventions Industrielles de Formation par la Recherche) é um sistema oficial francês que estimula parcerias de pesquisa entre empresas e laboratórios de universidades por meio da contratação de doutorandos para desenvolver projetos de pesquisa relevantes, com financiamento do Estado e das indústrias.

Essa discussão traz reflexões importantes para o Brasil. Não seria o momento de reformular o sistema de pós-graduação, priorizando de forma estratégica a formação nas chamadas áreas STEM? A iniciativa relativamente recente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) de criar bolsas para formar “doutores para a indústria” representa um passo relevante nessa direção. Embora recente, o programa apresenta resultados promissores e sinaliza a necessidade de aproximar a formação doutoral das principais demandas e prioridades tecnológicas nacionais.

Entretanto, formar doutores para fortalecer o setor produtivo exige mais do que editais pontuais. Requer visão de longo prazo, estabilidade orçamentária e articulação com políticas industriais e científicas. Exige também grupos de pesquisa consolidados, infraestrutura adequada e experiência comprovada dos programas de pós-graduação no desenvolvimento de projetos de inovação em parceria com empresas. Sem essa premissa, a iniciativa que se apresenta com grande potencial de transformar a inovação tecnológica dificilmente florescerá.

A disputa tecnológica global transmite uma mensagem clara: soberania tecnológica só se sustenta com excelência em ciência básica e elevada qualidade e capacidade consistente de inovação tecnológica. Países que não formam cientistas e engenheiros em número e qualidade adequados tornam-se dependentes de tecnologias desenvolvidas no exterior, comprometendo o crescimento de seu setor industrial, a geração de empregos qualificados e, em última instância, sua própria soberania nacional.

Investir em STEM não deve ser visto apenas como uma política educacional, mas como uma decisão estratégica de desenvolvimento, voltada a impulsionar a inovação tecnológica, elemento central para o fortalecimento da indústria, aumento da competitividade e a melhoria do bem-estar da população. Em um mundo cada vez mais polarizado e orientado pelo conhecimento, os países que formam, retêm e valorizam seus talentos científicos e tecnológicos ampliam enormemente suas chances de liderar processos inovadores e, consequentemente, de promover crescimento econômico sustentável com inclusão social.

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