Dieta rica em arginina reduz tumores e melhora a resposta contra influenza e SARS-CoV-2
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD
8/3/20262 min read
Breve introdução
A disponibilidade de aminoácidos varia significativamente durante diversas doenças, incluindo câncer e infecções virais, influenciada tanto pelo metabolismo do hospedeiro quanto pela alimentação. Embora esteja bem estabelecido que essas alterações afetam o metabolismo celular, ainda não estava claro se elas poderiam regular diretamente a expressão gênica por meio da tradução de proteínas.
O que os pesquisadores demonstraram
Em estudo publicado na revista Cell, Qiushuang Wu e colaboradores investigaram como a disponibilidade de arginina interfere na síntese de proteínas relacionadas à imunidade. O foco foi o complexo principal de histocompatibilidade de classe I (MHC classe I), molécula indispensável para a apresentação de antígenos aos linfócitos T CD8+, etapa essencial para o reconhecimento e eliminação de células tumorais e infectadas por vírus.
Os pesquisadores demonstraram que a redução da arginina extracelular diminui a disponibilidade de determinados RNAs de transferência (tRNAs) carregados com arginina, provocando pausas na tradução de códons específicos presentes nos genes do MHC classe I. Como consequência, ocorre redução da síntese dessa molécula, comprometendo a apresentação de antígenos e a ativação de linfócitos T citotóxicos. Em contrapartida, a suplementação dietética com arginina ou a inativação genética da arginase em células mieloides aumentaram a expressão do MHC classe I, intensificaram a infiltração de linfócitos T, reduziram a formação de tumores colorretais em camundongos e melhoraram significativamente a resposta contra infecções por influenza e SARS-CoV-2. Os autores também demonstraram que esses efeitos dependiam da integridade funcional do MHC classe I, uma vez que desapareceram em animais deficientes em β2-microglobulina. Além disso, identificaram que a escolha de códons sinônimos influencia diretamente a eficiência da tradução, revelando um mecanismo inédito de controle gênico dependente da disponibilidade de aminoácidos.
Conclusões e perspectivas
O estudo revela um mecanismo até então desconhecido pelo qual a arginina da dieta regula seletivamente a tradução de proteínas essenciais para a resposta imune por meio de um processo dependente de códons e tRNAs. Esses achados ampliam a compreensão da interação entre nutrição, tradução proteica e resposta imune, indicando que a suplementação de arginina poderá representar uma estratégia simples, segura e de baixo custo para potencializar imunoterapias antitumorais, aumentar a eficácia de vacinas e melhorar a resistência a infecções respiratórias. Além disso, o trabalho abre uma nova linha de investigação sobre o potencial de outros aminoácidos em modular seletivamente a tradução de proteínas e contribuir para o desenvolvimento de estratégias nutricionais personalizadas como abordagens terapêuticas adjuvantes em diferentes doenças.


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