Da experimentação animal aos “órgãos em um chip”: uma nova era na pesquisa médica
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD
8/24/20262 min read
Introdução
Durante décadas, os animais de laboratório têm sido fundamentais para a compreensão de doenças e para a avaliação da eficácia e da segurança de novos medicamentos em estudos pré-clínicos. Entretanto, as diferenças entre a biologia animal e a humana contribuem para uma importante lacuna entre os resultados pré-clínicos e o sucesso clínico. Os organoides — estruturas tridimensionais desenvolvidas a partir de células-tronco, células tumorais ou células de pacientes — surgem como modelos capazes de reproduzir de maneira mais próxima determinados aspectos da fisiologia e das doenças humanas. Atualmente, já existem organoides capazes de representar cerca de 150 tipos de órgãos, tecidos e outras estruturas biológicas. Esses modelos vêm sendo empregados no estudo de doenças, desenvolvimento humano, infecções, toxicidade, descoberta de medicamentos e medicina personalizada.
O que a autora propõe
Em artigo publicado na revista JAMA, Jennifer Abbasi discute a rápida transformação dos modelos utilizados na pesquisa biomédica, com a crescente utilização de organoides e outras metodologias baseadas em células humanas. O artigo aborda a transição para as chamadas novas metodologias de abordagem (new approach methodologies, NAMs), destacando particularmente os organoides. A proposta não é simplesmente substituir os animais, mas incorporar modelos humanos mais relevantes ao processo de descoberta e desenvolvimento de medicamentos. Um conceito particularmente promissor é o de clinical trials in a dish, no qual organoides derivados de diferentes pacientes poderiam ser utilizados para identificar candidatos terapêuticos, prever respostas individuais e selecionar pacientes com maior probabilidade de se beneficiarem de determinados tratamentos.
A combinação de organoides com inteligência artificial, aprendizado de máquina, genômica e sistemas organ-on-chip poderá ampliar significativamente sua capacidade preditiva. O artigo destaca, contudo, que entre as principais barreiras à disseminação dessas tecnologias estão a falta de padronização, reprodutibilidade e automação, além dos desafios relacionados à validação regulatória.
Conclusões e perspectivas
Os organoides representam uma mudança importante na pesquisa biomédica e podem reduzir significativamente a dependência de modelos animais, especialmente na descoberta de fármacos e na medicina de precisão. Entretanto, apresentam limitações, particularmente por serem modelos simplificados que não reproduzem integralmente a complexidade sistêmica de um organismo. Portanto, a substituição dos animais não deverá ocorrer imediatamente nem de forma universal. O futuro provavelmente será marcado por uma integração progressiva entre organoides, outras NAMs, inteligência artificial e, em situações específicas, modelos animais.


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