CRISPR inaugura uma nova estratégia para eliminar células doentes por sua assinatura de RNA

AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO

Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD

7/29/20262 min read

Breve introdução

Dois artigos publicados na revista Nature, conduzidos por grupos independentes de pesquisadores, apresentam uma nova aplicação da proteína CRISPR-Cas12a2, capaz de reconhecer moléculas específicas de RNA e, a partir desse reconhecimento, desencadear intensa fragmentação do DNA cromossômico, levando à morte seletiva da célula-alvo. Diferentemente do sistema CRISPR-Cas9, que promove cortes em locais específicos do DNA para edição gênica, a Cas12a2 funciona como um sistema de eliminação celular ativado pela presença de um RNA característico. Essa estratégia permite reconhecer células por seu perfil de expressão gênica ou por mutações específicas, criando uma plataforma potencialmente aplicável ao tratamento de cânceres, infecções virais e outras doenças caracterizadas por assinaturas moleculares exclusivas.

O que os pesquisadores demonstraram

No primeiro estudo, os autores mostraram que a Cas12a2 elimina, de forma altamente específica, células de levedura e células humanas que expressam um RNA previamente definido. Após reconhecer esse RNA, a enzima provoca múltiplas quebras no DNA, desencadeando intensa resposta ao dano genômico, parada do ciclo celular e apoptose, sem evidências relevantes de ativação fora do alvo. A tecnologia foi validada na eliminação de células infectadas pelo papilomavírus humano (HPV), células que escaparam à edição gênica e células portadoras da mutação oncogênica KRAS G12C, inclusive potencializando o efeito do sotorasib e mantendo atividade em células resistentes ao fármaco.

O segundo trabalho expandiu esse conceito para a terapia oncológica de precisão. Os pesquisadores demonstraram que a Cas12a2 pode distinguir RNAs que diferem por apenas uma mutação, eliminando seletivamente células contendo mutações em TP53, deleções ativadoras em EGFR e tumores com elevada expressão de oncogenes como MYC e CCNE1. Em modelos experimentais, a tecnologia também reduziu a carga tumoral após administração por meio de nanopartículas lipídicas, evidenciando seu potencial para atingir mutações consideradas undruggable, isto é, inacessíveis aos medicamentos convencionais.

Conclusões e perspectivas

Os dois estudos estabelecem um novo paradigma para o uso da tecnologia CRISPR. Em vez de corrigir genes, a Cas12a2 atua como um sistema programável de destruição seletiva de células definido por sua identidade transcricional. Essa abordagem amplia significativamente o arsenal da medicina de precisão, permitindo atacar células tumorais, infectadas ou geneticamente alteradas que escapam às terapias atuais. Embora ainda sejam necessários avanços nos sistemas de entrega, segurança e validação clínica, a plataforma poderá abrir caminho para uma nova geração de tratamentos personalizados contra o câncer, doenças infecciosas e outras enfermidades associadas a alterações específicas de expressão gênica ou mutações somáticas.

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