Cientistas demonstram como o cérebro separa a dor do sofrimento: sentir dor não é o mesmo que sofrer com a dor
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Fabiana C. V. Giusti, PhD; Sara Tolouei, PhD e João B. Calixto, PhD
1/26/20262 min read
Introdução
Os opioides continuam sendo os fármacos mais eficazes no tratamento da dor intensa, mas seu uso clínico é severamente limitado por efeitos adversos graves, como tolerância, dependência, depressão respiratória e risco de transtorno por uso de opioides. Apesar de décadas de pesquisa, os avanços em analgesia segura têm sido modestos, especialmente no contexto da dor crônica. Nesse cenário, cresce o interesse em estratégias que não apenas “anulem” a sensação dolorosa, mas que reduzam o sofrimento associado à dor. Estudos recentes reforçam a ideia de que a dor possui dois componentes distintos: o sensorial, necessário para a proteção do organismo, e o emocional, responsável pelo sofrimento, angústia e medo.
O que os autores demonstraram
Em artigo publicado na revista Nature, Oswell e colaboradores desenvolveram uma abordagem inovadora para estudar o componente emocional da dor em modelos animais. Eles criaram uma plataforma aberta baseada em aprendizado de máquina, denominada LUPE (Light Automated Pain Evaluator), capaz de identificar padrões comportamentais associados ao sofrimento contínuo em camundongos com dor neuropática. Utilizando essa ferramenta, os autores identificaram um subconjunto específico de neurônios no córtex cingulado anterior, ativados pela dor e que expressam o receptor μ-opioide, alvo clássico de ação dos opioides. Em seguida, empregaram uma estratégia de terapia gênica para silenciar seletivamente esses neurônios. A inibição dessa população neuronal foi suficiente para reduzir o sofrimento emocional da dor crônica, sem comprometer a percepção sensorial normal nem os reflexos protetores.
Perspectivas clínicas dos resultados
Os achados apontam para uma mudança conceitual importante no tratamento da dor crônica: aliviar o sofrimento sem eliminar a capacidade de sentir dor. Embora a abordagem genética utilizada ainda não seja aplicável diretamente em humanos, o estudo abre caminho para estratégias futuras de neuromodulação mais precisas e menos invasivas. Tecnologias emergentes, como estimulação cerebral profunda personalizada e ultrassom focalizado de alta intensidade, podem futuramente explorar circuitos semelhantes. Além disso, essa estratégia pode ter impacto não apenas na dor crônica, mas também na prevenção de comorbidades psiquiátricas associadas, como depressão, ansiedade e transtornos por uso de substâncias, oferecendo uma alternativa promissora ao uso prolongado de opioides.


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