A nova era do tratamento do câncer: da medicina de precisão às terapias personalizadas

O tratamento do câncer está passando por uma transformação impulsionada pelos avanços da biologia molecular e da imunoterapia. A oncologia de precisão abre caminho para abordagens cada vez mais personalizadas, considerando as características moleculares de cada tumor. Essas inovações trazem novas perspectivas para o diagnóstico e o tratamento da doença, embora ainda existam desafios relacionados à segurança, à eficácia e ao acesso dos pacientes.

TEXTO AUTORALBLOG CIENP

Marina Delgobo, PhD e João B. Calixto, PhD

10/13/20268 min read

Uma nova compreensão do câncer

Durante muitas décadas, o câncer foi classificado principalmente de acordo com o órgão onde o tumor se originava. Assim, falava-se em câncer de pulmão, mama, próstata, melanoma ou linfoma. Essa classificação continua sendo fundamental para o diagnóstico e o tratamento.

Mas os avanços da biologia molecular mostraram que tumores originados no mesmo órgão podem ser muito diferentes. Eles podem apresentar alterações genéticas distintas, utilizar diferentes mecanismos para crescer e desenvolver diferentes formas de resistência aos medicamentos.

Além disso, tumores de órgãos diferentes podem compartilhar alterações moleculares semelhantes. Isso abriu caminho para uma mudança importante na oncologia. O tratamento deixou de depender apenas do local onde o tumor surgiu e passou a considerar também suas características moleculares e imunológicas.

Essa transformação deu origem à chamada oncologia de precisão. Seu objetivo é identificar as características particulares de cada tumor e utilizar essas informações para selecionar o tratamento mais adequado.

Essa nova abordagem também está transformando o diagnóstico. A análise do DNA tumoral circulante no sangue, conhecida como biópsia líquida, permite identificar alterações moleculares sem a necessidade de retirar repetidamente fragmentos do tumor. Embora muitas aplicações para detecção precoce ainda estejam em investigação, o monitoramento molecular já começa a influenciar decisões terapêuticas.

O resultado é uma mudança profunda na pergunta feita pelo oncologista. Além de saber "onde está o tumor", passa a ser necessário perguntar: "quais alterações fazem esse tumor crescer e como podemos explorá-las para combatê-lo?"

Terapias direcionadas a alterações moleculares

Uma das principais conquistas da oncologia de precisão foi o desenvolvimento das terapias-alvo. Esses medicamentos são desenhados para bloquear moléculas ou vias de sinalização importantes para a sobrevivência e a multiplicação das células tumorais.

Um exemplo recente é o daraxonrasibe, aprovado pela FDA em agosto de 2026 para pacientes com adenocarcinoma pancreático metastático previamente tratados. O medicamento atua sobre proteínas RAS em seu estado ativo. No estudo clínico de fase III, a sobrevida global mediana foi de 13,2 meses, comparada a 6,7 meses com a quimioterapia escolhida pelo investigador.

Outro exemplo é o camizestranto, aprovado pela Anvisa em setembro de 2026 para pacientes com câncer de mama localmente avançado ou metastático, receptor hormonal positivo e HER2 negativo, nos quais surge uma mutação no gene ESR1 durante o tratamento inicial. O medicamento atua sobre o receptor de estrogênio e enfrenta um importante mecanismo de resistência à terapia hormonal.

Esses exemplos mostram uma característica fundamental da oncologia moderna: dois pacientes com o mesmo tipo de câncer podem receber tratamentos diferentes porque seus tumores apresentam alterações moleculares distintas.

Terapias CAR-T

Outra revolução ocorre com as terapias CAR-T. Nessa estratégia, células do sistema imunológico do próprio paciente, os linfócitos T, são retiradas do organismo e geneticamente modificadas para reconhecer e atacar células tumorais. Depois de multiplicadas em laboratório, são reinfundidas no paciente.

As terapias CAR-T já produziram resultados importantes, especialmente contra alguns tipos de câncer do sangue. Um dos grandes desafios era levar essa tecnologia para os chamados tumores sólidos, como os cânceres de estômago, pulmão, pâncreas e intestino.

Porém, esse cenário começou a mudar em 2026. Em junho, a autoridade regulatória chinesa aprovou o satri-cel, uma terapia CAR-T dirigida contra a proteína CLDN18.2, para pacientes com câncer gástrico ou da junção gastroesofágica avançado, positivo para esse alvo e resistente a tratamentos anteriores. O satri-cel tornou-se a primeira terapia CAR-T aprovada no mundo para um tumor sólido.

Essa aprovação é particularmente importante porque demonstra que as terapias celulares começam a superar algumas das barreiras que dificultaram sua utilização contra tumores sólidos.

CAR-T produzidas diretamente dentro do organismo

Uma das fronteiras mais promissoras é a chamada CAR-T in vivo. Em vez de retirar os linfócitos T, modificá-los em laboratório e depois reinfundir as células, pesquisadores estão desenvolvendo vetores virais e nanopartículas capazes de levar diretamente aos linfócitos as informações genéticas necessárias para produzir o receptor CAR.

Em um estudo de fase I publicado em março de 2026, cinco pacientes com mieloma múltiplo receberam uma única infusão de um vetor (ESO-T01) capaz de gerar CAR-T contra o BCMA, proteína presente nas células do mieloma, sem coleta de células, fabricação ex vivo ou quimioterapia linfodepletora, e quatro deles apresentaram resposta objetiva. Em outubro, o seguimento do primeiro grupo tratado com o mesmo produto, de quatro pacientes, mostrou respostas que chegaram a 15 meses, embora três deles tenham posteriormente apresentado progressão da doença.

Essa estratégia poderá simplificar e reduzir o custo das terapias CAR-T. Entretanto, ainda está em fase inicial e precisa superar desafios relacionados à segurança, à duração da resposta e à capacidade de modificar seletivamente os linfócitos T.

Anticorpos biespecíficos

Outra estratégia recente é baseada nos anticorpos biespecíficos. Essas moléculas são desenhadas para reconhecer simultaneamente dois alvos.

Em alguns casos, um lado do anticorpo se liga à célula tumoral e o outro, aos linfócitos T. Dessa maneira, o medicamento aproxima o sistema imunológico do tumor e favorece sua destruição.

Um exemplo é o mosunetuzumabe, que reconhece simultaneamente o CD20, presente em células B malignas, e o CD3, presente nos linfócitos T.

Em agosto de 2026, a Anvisa aprovou uma formulação subcutânea do medicamento para pacientes adultos com linfoma folicular recidivado ou refratário após duas ou mais linhas de tratamento sistêmico.

Os anticorpos biespecíficos representam uma estratégia diferente das terapias celulares. Em vez de modificar as células do paciente em laboratório, utilizam uma molécula capaz de aproximar e ativar as próprias células de defesa do organismo.

O que está em fase avançada de desenvolvimento?

Se algumas dessas tecnologias já chegaram aos pacientes, outras avançam rapidamente em ensaios clínicos.

Um dos exemplos mais promissores são as vacinas terapêuticas personalizadas de RNA mensageiro. Diferentemente das vacinas tradicionais, seu objetivo não é prevenir uma infecção. Elas são desenvolvidas para ensinar o sistema imunológico a reconhecer características específicas das células tumorais.

Para isso, o tumor do paciente é sequenciado e comparado com seu tecido normal. Os pesquisadores identificam mutações que produzem os chamados neoantígenos. A partir dessas informações, é produzida uma molécula de mRNA capaz de orientar o sistema imunológico a reconhecer e atacar as células tumorais.

Um dos exemplos mais avançados é o intismeran autogene, também conhecido como V940 ou mRNA-4157, desenvolvido pela Moderna e pela Merck. A vacina pode codificar dezenas de neoantígenos específicos de cada paciente.

Em agosto de 2026, o estudo de fase III INTerpath-001, com 1.137 pacientes com melanoma de alto risco, atingiu seus objetivos principais. A associação da vacina com pembrolizumabe aumentou significativamente a sobrevida livre de recorrência e a sobrevida livre de metástases à distância. A sobrevida global ainda não está madura e a terapia permanece experimental.

Esse tipo de abordagem poderá representar uma mudança ainda mais profunda. Em vez de simplesmente escolher entre medicamentos disponíveis, poderá ser possível desenvolver uma terapia parcialmente "sob medida" para cada paciente.

Outra frente importante é o desenvolvimento de novas gerações de terapias CAR-T para tumores sólidos. O sucesso do satri-cel demonstra que é possível encontrar alvos adequados em determinados tumores, mas ainda existem obstáculos importantes, como a heterogeneidade do tumor e o microambiente tumoral, que dificulta a ação das células imunológicas.

Também avançam as pesquisas com biópsia líquida. A possibilidade de detectar alterações tumorais no sangue antes que a doença seja clinicamente evidente poderia transformar o diagnóstico precoce e o acompanhamento dos pacientes. Entretanto, essas tecnologias ainda precisam demonstrar elevada sensibilidade, especificidade e utilidade clínica antes de serem incorporadas à rotina.

Conclusões e perspectivas

A oncologia está passando por uma transformação que vai muito além do desenvolvimento de novos medicamentos. O que está mudando é a própria maneira de compreender o câncer.

Cirurgia, radioterapia e quimioterapia continuam sendo fundamentais. A imunoterapia também já faz parte da prática clínica em diversos tumores. As novas tecnologias não substituem necessariamente essas abordagens. Elas permitem combiná-las de maneira mais racional e direcionada.

A tendência é que o tratamento dependa cada vez mais das características individuais de cada tumor. Testes moleculares poderão indicar quais medicamentos têm maior probabilidade de combater o tumor. Biópsias líquidas poderão ajudar a acompanhar a evolução da doença. Terapias celulares poderão ser adaptadas para diferentes tumores. E vacinas personalizadas poderão estimular o sistema imunológico contra alterações exclusivas de cada paciente.

No entanto, transformar uma descoberta científica em um tratamento seguro e eficaz continua sendo um processo longo e custoso. Entre a identificação de um novo alvo e a chegada de um medicamento aos pacientes, existe uma extensa cadeia de pesquisa básica, estudos pré-clínicos, desenvolvimento tecnológico e ensaios clínicos.

O futuro da oncologia provavelmente será marcado pela integração dessas diferentes tecnologias. A combinação de informação genética, técnicas de biologia molecular, inteligência artificial, novos métodos diagnósticos, terapias direcionadas e estratégias de ativação do sistema imunológico poderá tornar o tratamento cada vez mais preciso e seguro.

Mas o grande desafio será garantir que esses avanços não beneficiem apenas uma parcela dos pacientes. A incorporação das novas tecnologias aos sistemas de saúde, especialmente em países de baixa e média renda, a redução dos custos e a ampliação do acesso serão tão importantes quanto a própria descoberta científica.

A medicina do câncer está, portanto, entrando em uma nova era. O objetivo já não é apenas tratar um determinado tipo de tumor. É compreender as características de cada câncer e encontrar, para cada paciente, a estratégia mais eficaz para impedir que a doença avance.

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