A ascensão dos países asiáticos na inovação biofarmacêutica: lições para a América Latina
AVANÇOS CIENTÍFICOS EM FOCO
Sara Tolouei, PhD; Fabiana C. V. Giusti, PhD e João B. Calixto, PhD
7/9/20262 min read
O cenário mundial da inovação farmacêutica está passando por uma transformação importante. Durante décadas, a liderança em pesquisa e desenvolvimento (P&D) esteve concentrada em grandes empresas dos Estados Unidos, da Europa e do Japão. No entanto, um estudo publicado por Ajay Gautam na revista Nature Reviews Drug Discovery mostra que empresas biofarmacêuticas da Ásia, da América Latina e de outros mercados emergentes, incluindo o Brasil, estão acelerando sua transição de fabricantes de medicamentos genéricos para desenvolvedoras de medicamentos inovadores.
O trabalho analisou dados de 45 empresas da Ásia, da América Latina e da região que compreende a Europa Oriental, o Oriente Médio e a África (EEMEA) entre 2010 e 2025. Entre as empresas brasileiras avaliadas estão Aché, Cristália, Eurofarma, EMS (Grupo NC) e Hipera Pharma. Para analisar o desempenho dessas companhias, o autor desenvolveu um modelo baseado em dois indicadores principais: a intensidade dos investimentos em P&D, medida como o percentual da receita destinado à pesquisa, e o grau de inovação do portfólio, considerando a proporção de produtos inovadores em relação aos medicamentos genéricos.
A análise identificou três grupos de empresas: líderes em inovação, inovadoras emergentes e fabricantes predominantemente focados em medicamentos genéricos. As companhias classificadas como líderes investem significativamente mais em pesquisa, apresentam portfólios altamente inovadores e alcançam maior crescimento de receita e melhor desempenho no mercado financeiro. Em média, essas empresas registram crescimento superior a 10% em relação aos fabricantes de genéricos, além de proporcionarem retornos mais elevados aos investidores.
O estudo destaca especialmente o avanço da China e da Coreia do Sul. Empresas como Hengrui Pharma, CSPC Pharma, Innovent Biologics, Henlius, Hanmi Pharma e Yuhan Corp aumentaram progressivamente seus investimentos em P&D e direcionaram seus esforços para o desenvolvimento de medicamentos inovadores, incluindo terapias first-in-class e best-in-class. A Índia também apresenta evolução consistente, embora em ritmo mais moderado, com empresas como Biocon, Dr. Reddy's Laboratories e Glenmark ampliando seus portfólios de inovação.
Em contraste, a maioria das empresas da América Latina e da região EEMEA analisadas, muitas delas bem capitalizadas, continua concentrada na produção de medicamentos genéricos. Essas companhias investem menos de 5% de sua receita em pesquisa e desenvolvimento e apresentam índice de inovação em torno de 0,1 (em uma escala cujo valor máximo é 1). Segundo o autor, fatores como a limitada disponibilidade de plataformas tecnológicas, a reduzida tolerância ao risco por parte dos investidores e sistemas de precificação que favorecem os medicamentos genéricos dificultam a construção de ecossistemas de inovação nessas regiões.
O estudo conclui que a transição da produção de medicamentos genéricos para a inovação radical em saúde humana depende de investimentos sustentados em P&D, da concentração em áreas terapêuticas estratégicas, do domínio de plataformas tecnológicas específicas e do estabelecimento de parcerias internacionais para acesso a novas modalidades terapêuticas. A experiência asiática demonstra que empresas, especialmente da China e da Coreia do Sul, tradicionalmente voltadas à produção de medicamentos genéricos, podem tornar-se protagonistas globais da inovação ao adotar uma estratégia consistente e de longo prazo. Para os países emergentes, especialmente os da América Latina, os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas e estratégias empresariais de longo prazo capazes de estimular investimentos contínuos em pesquisa básica, inovação e desenvolvimento tecnológico — condição essencial para ampliar sua competitividade na indústria biofarmacêutica global.


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